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O instrumento de luthier é melhor que o feito em fábrica?

Depende, pode ser e pode não ser.

A principal diferença entre um instrumento produzido artesanalmente por um luthier, e outro produzido industrialmente em uma fábrica não é tanto o equipamento utilizado, visto que hoje em dia tanto luthiers quanto fábricas usam máquinas como serras elétricas, desempenadeiras, desengrosadeiras, tupias, CNC, corte laser, etc. O que faz toda a diferença é o processo e o propósito. Fábricas utilizam seu equipamento para realizar operações sequenciais e repetitivas, com alto nível de especialização, de modo a alcançar um resultado que satisfaça o mercado que se propõe atingir. O luthier utiliza o mesmo equipamento com maior liberdade, conforme a natureza do serviço executado, visando atender à demanda específica daquele projeto no qual está trabalhando, de modo a satisfazer as necessidades do musico ao qual o instrumento se destina. Assim sendo, muito embora soe evidente, a principal diferença entre um instrumento industrial e um outro artesanal é que o primeiro é produzido visando atender a um mercado de massa, enquanto o segundo visa atender a um indivíduo em particular.

Como consequência deste fato, surgem as seguintes implicações:

Qualidade

Qualidade, do ponto de vista da indústria, é o atributo de um produto fabricado de maneira idêntica, previsível, vez após vez, que atenda às especificações técnicas do padrão definido, dentro de limites aceitáveis, em um processo de produção simples e rápido de ser executado, a um custo razoável (o mais baixo possível), e que torne o produto atraente para o mercado ao que o mesmo se destina.

Por outro lado, qualidade para o musico refere-se principalmente à capacidade do instrumento musical produzir o som esperado, ou seja, de ser um instrumento capaz de produzir som precisamente de acordo com a técnica de quem o toca. Este normalmente também é o ponto de vista do luthier, para quem eficiência de produção é importante, porém fator secundário, na sua determinação em criar o instrumento perfeito.


O instrumento ideal da fábrica é aquele que é produzido rapidamente, é resistente, e é comercializável. O instrumento ideal do luthier é aquele que soa e toca bem. Particularmente no caso do violão, boa sonoridade envolve diversos fatores sistêmicos que, atuando em conjunto, definem a qualidade do som produzido. Justamente porque existem tantas partes onde um pouquinho menos ou mais de madeira aqui e ali podem fazer toda a diferença, este é um conhecimento que leva anos para adquirir. Este é o nível que um luthier busca alcançar, o do domínio do conhecimento sobre os materiais. Uma vez alcançado esse patamar, ele estará preparado para produzir instrumentos consistentes em qualidade, satisfazendo as necessidades combinadas com seu cliente.

Uma fábrica, por sua vez, não pode se dar ao luxo de tratar cada instrumento de forma individual. Ao contrário, sua operação baseia-se em processos que tratam cada parte de forma idêntica. Assim sendo, o resultado normalmente alcançado em termos de qualidade de sonoridade tende a obedecer estatisticamente a distribuição normal, de modo que 15% dos produtos apresentam baixa qualidade, 15% são realmente muito bons, e 70% apresentam a qualidade esperada no padrão definido. Então, em um extremo estão os instrumentos realmente bons, e no outro aqueles realmente ruins. Conseguir um instrumento de fábrica realmente bom é portanto uma questão de procura e de sorte, ainda que os vendedores das lojas queiram convencer o cliente do contrário.


Curva da distribuição normal


Assim que chega às mãos do cliente, um instrumento feito em fábrica frequentemente precisa de regulagens e ajustes para se tornar tocável. Os ajustes mais frequentes costumam ser a regulagem de altura das cordas no capotrasto e no cavalete, ajuste do tensor, troca de encordoamento, ajuste de intonação, retifica nos trastes, etc. Por outro lado, instrumentos feitos artesanalmente por um luthier normalmente já são entregues regulados, pois o construtor já conhece antecipadamente o que o músico deseja obter, tendo construído o instrumento de acordo com as mãos de quem irá toca-lo, tornando desnecessário qualquer ajuste.

Customizações

Por uma questão de escala econômica de produção, instrumentos de fábrica são produzidos de modo a atender especificações muito bem definidas e limitadas às opções disponíveis. Qualquer demanda por algo particular, como por exemplo um braço com contorno diferente do padrão, só pode ser atendida mediante o pagamento de um valor extra comparativamente desproporcional ao valor do instrumento. Por outro lado, na medida em que estilos musicais e técnicas de execução evoluem, instrumentos com outros comprimentos de escala, largura e contorno de braço, tipos e tamanhos de trastes, afinações exóticas, espaçamento de cordas, tonalidades, madeiras, formatos e tamanhos de caixa sonora, escala elevada, soundports, armbevels, etc., se tornam mais e mais desejáveis. Um instrumento feito por um luthier normalmente considera as necessidades e desejos específicos do indivíduo para o qual o mesmo se destina, sem acrescentar um valor desconcertante. Então, a vantagem do instrumento industrial se dá na medida em que o cliente busca algo padronizado; caso contrário, o luthier pode atendê-lo melhor.

Preço

Existem instrumentos de fábrica de todos os preços. Alguns apresentam uma boa relação custo-beneficio, outros não. Mas seja como for, dependendo do que se procura, o instrumento industrial quase sempre é mais acessível, apresenta um preço menor do que o preço de um instrumento semelhante feito por um bom luthier, representando assim uma porta de entrada especialmente aos iniciantes que ainda não sabem exatamente o que querem, muito menos o que procurar em um instrumento.

Porém, é importante não confundir preço com valor. Um instrumento feito por um artesão carrega uma relação preço x valor mais verdadeira do que a de um instrumento feito em fábrica. Ao formar o preço, o luthier estima as horas que irá trabalhar especificamente para aquele projeto, acrescenta o custo dos materiais, componentes e serviços a serem utilizados, converte-os em valor monetário, e é só. A fábrica forma o preço de acordo com o seu objetivo de penetração em um determinado mercado, considerando os custos de produção e da cadeia de distribuição, e o markup desejado, que não reflete nem de perto o tempo e o esforço, particularmente do trabalho humano, efetivamente dispendido no produto. O mesmo produto frequentemente assume preços diferentes dependendo da praça em que é vendido, do canal em que é comercializado e de acordo com o seu estágio no ciclo de vida do produto. Eu diria portanto que o valor de um instrumento feito por um luthier é mais justo do que o daquele feito em uma fabrica.

Manutenção e garantia

Como a fábrica não tem como saber antecipadamente para quem o instrumento sendo fabricado será vendido, e para onde será enviado, naturalmente precisa se prevenir contra problemas estruturais no instrumento que venham a levar o cliente a acionar a garantia. Para tanto, normalmente faz os instrumentos mais robustos do que eles poderiam ser, à custa do sacrifício de uma melhor sonoridade. Já o artesão, por outro lado, precisa produzir instrumentos responsivos, leves no seu limite, pois caso contrário, a qualidade sonora de seu instrumento não apresentará uma vantagem em relação ao instrumento de fábrica, confundindo o cliente com sua proposta de valor.

Instrumentos de fábrica costumam ser feitos empregando materiais e processos que possibilitam um produto livre de problemas durante o período da garantia. Mas no longo prazo, justamente por causa desses mesmos materiais e processos, reparos e manutenções (quase sempre inevitáveis, no caso de violões) se tornam muito mais caros, às vezes inviabilizando o conserto. Na verdade, é mais interessante para a fábrica vender um instrumento novo do que fazer manutenção. Um bom instrumento artesanalmente feito por um luthier é construído para ter vida longa, o que vale dizer, para ser reparado pelo luthier de forma relativamente simples. Muitos luthiers inclusive assumem o custo de reparos e correções em seu instrumento quando estes não são decorrentes de mau uso, e mesmo aqueles que cobram pelo serviço, o fazem a um custo bem menor do que uma fabrica faria. A questão aqui é avaliar quanto tempo a pessoa pretende ficar com o instrumento, ou trocar por outro.

Relacionamento

Ao contratar os serviços de um luthier, mais do que adquirir um instrumento, o indivíduo estará fazendo uma amizade, estabelecendo um relacionamento que vai além do negócio propriamente dito. De fato, antes sequer de contrata-lo, a pessoa certamente já terá pesquisado a seu respeito o bastante para ter desenvolvido um senso de confiança suficiente para se comprometer com o pagamento de um adiantamento. O luthier, por sua vez, passará a estar disponível para discutir detalhes e decidir em conjunto aspectos do instrumento, e se sentirá responsável por aquele projeto em particular, em uma relação de cumplicidade com o cliente. Com um instrumento feito em fábrica normalmente não existe esta cumplicidade entre cliente e fabricante. Na melhor das hipóteses, o relacionamento, um tanto impessoal, se dá com o vendedor da loja ou com o canal de atendimento ao cliente da fábrica.

Gosto de pensar que a outra diferença significativa entre instrumentos de fábrica e artesanais é quanto ao grau em que se dá o processo colaborativo que aproxima o luthier de seu cliente. Artesãos gostam de encontrar músicos que apreciam seu trabalho e que o desafiam a fazer algo sempre melhor; músicos gostam de encontrar artesãos que entendem suas necessidades. É uma relação frutífera, simbiótica, de interesses comuns. Já a fábrica, apenas preocupada em vender mais e mais instrumentos, normalmente prefere firmar parcerias somente com endorsers.

Embasamento de luthieria

Ainda que existam diversos produtos para os quais o modelo tradicional de produção se aplica bem, definitivamente não é o caso daqueles instrumentos musicais que, como o violão, são fabricados com peças relativamente finas de madeira. A madeira é um material que apresenta grande variação de resistência, tanto lateral quanto longitudinal, a ponto de dois tampos afinados exatamente na mesma espessura apresentarem diferenças que podem chegar a 100% em densidade, 200% em flexibilidade longitudinal e 300% em flexibilidade lateral. Assim sendo, ainda que certos componentes possam ser feitos em pequenos lotes e em dimensões aproximadas, sua finalização é sempre feita tomando como base o instrumento individual: o luthier avalia e decide qual tampo vai com quais travessas, que serão aparadas à uma certa altura, levando em consideração a flexibilidade do tampo, o objetivo de freqüência de ressonância, e assim por diante. Um luthier sério vai aprendendo com o tempo, e ainda que seus primeiros instrumentos possam ser inferiores em alguns aspectos à instrumentos de fábrica, no longo prazo ele tende a alcançar um estágio superior a este, se quiser sobreviver.


Tampo preparado para teste de deflexão

O resultado do trabalho da fábrica por outro lado tende a ser constante e previsível, sem necessariamente apresentar melhora ano após ano. O trabalho feito na fábrica é baseado mais no uso de melhores máquinas, métodos e gabaritos, do que na melhoria da habilidade do pessoal além daquela estritamente necessária à operação dessas mesmas máquinas e gabaritos conforme o padrão estabelecido pela indústria.

Esta é de fato a grande diferença entre mão de obra de fábrica e mão de obra de artesão. A mão de obra de fábrica é focada na elaboração de métodos para operação de máquinas, ferramentas e gabaritos. De fato, grande esforço de tempo é empregado em testes destes equipamentos antes mesmo do primeiro instrumento ser produzido, justamente porque precisam produzir o resultado esperado mesmo pelo mais novo e inexperiente empregado. O empregado é pago para repetir o processo de maneira idêntica, vez após vez, de maneira a atender o padrão estabelecido pela indústria.

O artesão, por outro lado, precisa se inteirar de absolutamente tudo. E precisa levar anos até dominar todas as técnicas e adquirir o conhecimento necessário para produzir um instrumento de alto nível, e até que ele consiga, seus instrumentos apresentarão desempenho abaixo do ideal em alguns aspectos. Como em quase tudo na vida, você recebe aqui pelo que você paga.

Então afinal, todo instrumento artesanal é melhor que um feito em fábrica?

Não necessariamente. Existem instrumentos muito bons feitos em fábrica assim como instrumento não tão bons feitos por luthiers. Depende em grande parte da experiência do artesão e das características de sonoridade e design pelas quais ele é conhecido. Ninguém ficará surpreso ao constatar que luthiers iniciantes fazem instrumentos para músicos iniciantes, assim como os mais experientes farão instrumentos melhores. Por outro lado, o fator tempo e experiência não encontra o mesmo significado nos instrumentos feitos em fábrica. Em outras palavras, um instrumento fabricado por uma empresa antiga não é necessariamente garantia de um melhor instrumento, pois como dito anteriormente, a fábrica normalmente não investe no desenvolvimento das habilidades dos operários, focando na habilitação dos empregados na utilização das máquinas de uma forma que possa trazer resultados repetitivos e esperados. Melhorias, quando existem, estão muito mais relacionadas à eficiência do processo produtivo do que na experiência acumulativa dos empregados.

Mas não seriam, ao menos os instrumentos top-de-linha de fábrica, com certeza melhores que os de luthier?

Para o pessoal da fábrica, provavelmente sim. Eles acreditam que um processo de montagem em alta escala de partes pré-fabricadas é capaz de produzir um instrumento superior. Algumas empresas deixam explícita essa premissa em seus anúncios publicitários. Mas em geral, não existe essa regra geral pelos motivos já apresentados aqui. Na verdade, instrumentos artesanais e aqueles feitos em fábrica são feitos com uma inteligência diferente, com diferentes prioridades, e para diferentes mercados. Instrumentos top-de-linha costumam ser bastante ornamentados, equipados com alguns elementos e componentes que trazem uma certa exclusividade, e costumam ser produzidos em quantidade limitada, de modo a justificar o alto preço. Normalmente são direcionados a um outro público, o do colecionador. Para o músico médio, a aparência e apelo do instrumento não é suficiente para contrabalancear o alto preço. Nem tampouco para o músico profissional, que sabe tratar-se de um produto que embora visualmente melhor acabado, carrega a mesma essência, alma e sonoridade dos demais instrumentos da fábrica, e que portanto traz a mesma situação de variação aleatória de qualidade sonora. Porém, o colecionador tem outros interesses. Ele busca pelo apelo da raridade, exclusividade e "colecionabilidade" do instrumento, sendo assim seus principais interesses a aquisição, investimento e exibição, e não utiliza-lo necessariamente como instrumento musical.

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